quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Pensar-se brasileiro

Operários (1933) - Tarsila do Amaral

Normalmente quando falamos de filosofia, vem a mente figuras (de homens) como Platão, Sócrates, Aristóteles, Descartes, Schopenhauer, Nietzsche, Sartre, Foucault entre outros. Muitos destes nomes são difíceis de escrever e até pronunciar, o que denota de certa forma que não vieram desta terra onde tem palmeiras e onde canta o sabiá.

Um pouco de contexto

Acho necessário contextualizar que esse pedação de terra que chamamos de Brasil, há cerca de 500 anos atrás, era habitado pelos povos originários que tinham suas culturas, crenças e costumes próprios. Os europeus em busca de novos mercados e matérias primas, após aprenderem a arte da navegação, conseguiram chegar nestas terras, dizimaram e escravizaram estes povos, tomaram e colonizaram suas terras, exploraram _ com mais mão de obra escravizada negra vinda da África _ e exportaram suas riquezas de volta para a Europa, onde hoje vivem muito bem, obrigado.

Com o início do movimento antiescravagista, produziram uma onda de imigrações, dessa vez de europeus, para substituir a mão de obra escrava, e de quebra promover um branqueamento do país, pois para políticos e certos intelectuais da época, a miscigenação era o motivo do atraso do país _ atraso aqui entendido como não entrada no chamado mundo moderno e industrializado.

Após a guerra civil dos EUA, este entrou forte com sua influência e porrete na América Latina, que fez permanecer e até aumentar o sentido das economias destes países, como basicamente grandes latifúndios produtores e exportadores de produtos primários (matérias primas), e importadores de produtos acabados _ que são mais caros que os produtos primários, e tornam a balança comercial mais favorável para aqueles que exportam tais produtos acabados.

Com a entrada do Brasil _ e demais países do chamado terceiro mundo _ na era da industrialização, mantendo sua dominação financeira e comprando influências, as grandes potências passaram a instalar suas fábricas (as transnacionais), explorando novamente e ainda as terras brasileiras, seus "recursos naturais", pagando salários bem menores do que pagam em seus próprios países, e no final pegando essa riqueza produzida por mãos brasileiras, e levando para seus países. Onde como já sabemos, passam bem, obrigado.

Voltando ao raciocínio inicial

Comecei falando de filosofia e acabei tendo que me desviar num certo resumo da história brasileira, e isso não foi à toa.

Para começar a pensar enquanto brasileiros e brasileiras, creio ser necessário entendermos nossas raízes, entendermos nosso lugar no mundo, termos pelo menos uma noção da nossa constituição enquanto povo e nação.  Em meio a colonização, importação de povos escravizados, povos originários, imigrações tardias, existe um ser brasileiro? Se existe, como surgiu, como se identifica e quais suas visões de mundo? O que é esse ser brasileiro?

Quando pensamos a vida, o fazemos no espaço e no tempo. Cada mente tem suas possibilidades de abstrações, de viajar para lugares que já existiram ou que talvez ainda vão existir. Mas essa mente está presa a um corpo histórico: um corpo preso no tempo e no espaço. E este corpo está sujeito às influências culturais (à língua, às crenças, comportamentos, etc), aos valores familiares e da sociedade em que está inserido num determinado período no tempo.

Platão por mais que tenha deixado muitos escritos, refletindo sobre vários assuntos, era um homem preso no espaço e tempo, influenciado pela cultura e costumes desta sociedade, e que também pensou questões do seu tempo. Em sua obra A República, debruçou-se sobre a questão da cidade ideal e do governo ideal, chegando a conclusão que a aristocracia (o governo dos bons, no sentido de mais capazes) era a melhor forma de governo (ele abominava a ideia de democracia) e que os mais aptos para governar (ora, ora) seriam os reis-filósofos.

Uma pergunta aqui se faz necessária: Que filósofos Platão leu? Você deve se lembrar que ele foi pupilo de Sócrates, e isso pode ser parte da resposta, então mudo a pergunta: Que autores Sócrates leu? E se leu quaisquer autores, o que estes leram antes?

Essa pequena digressão é apenas para ilustrar algo que considero importante: se consideramos a filosofia ou como o amor pelo conhecimento, ou como um processo de reflexão sobre o mundo, tal processo pode ser feito por qualquer pessoa que tenha a capacidade de refletir, em qualquer parte do mundo e em qualquer época.

Sendo nós seres humanos, brasileiros e brasileiras, temos também a capacidade de fazê-lo, e não precisamos necessariamente fazer isso partindo de premissas e ideias que não são às nossas, de problemas que não são os nossos. Podemos pensar o mundo a partir das nossas angústias e inquietações, dos nossos problemas e desafios, dos nossos valores e costumes.

Não estou aqui dizendo que devamos rejeitar o pensamento considerado estrangeiro, não se trata disso.

Devemos sim dialogar com este pensamento, tentar entender o que Descartes tem a nos dizer sobre questões que nos afligem, e conversar com suas ideias. Não rejeitá-las logo de cara, mas também não agir de forma dogmática e subalterna, simplesmente importando tais ideias acriticamente porque dizem que este homem francês, também fruto de seu tempo, é um filósofo que está num certo pedestal do pensamento universal (?) e cujas ideias devem ser veneradas porque sim.

Para um país que foi colônia por mais de 300 anos, e que ainda sofre forte influência da cultura estrangeira, majoritariamente ocidental-europeia, e que enxerga esta cultura exógena como superior, moral e bela, tentar pensar a si próprio, descolonizar o próprio pensamento, é um desafio imenso, e acredito que mais do que necessário.

Para que pensar-se brasileiro?

Deixo essa reflexão para ilustrar um pouco da importância do pensar-se como parte integrante de um determinado povo, que vive em seu próprio território num dado tempo mundo.

No terceiro capítulo da República, Platão, através de Sócrates, menciona que para que o povo se mantenha unido, este povo precisa acreditar numa nobre mentira:
Sócrates — (...) Começarei por tentar convencer os chefes e os soldados, em seguida os outros cidadãos, de que tudo o que lhes ensinamos, educando-os e instruindo-os, tudo aquilo de que julgamos ter o conhecimento e a experiência, não passava, por assim dizer, de sonho; que, na realidade, eram então formados e criados no seio da terra, eles, as suas armas e tudo o que lhes pertence; que, depois de os ter formado inteiramente, a terra, a sua mãe, lhes deu â luz; que, por isso, devem considerar a região que habitam como a sua mãe e ama, defendê-la contra quem a atacar e tratar os outros cidadãos como irmãos, filhos da terra como eles (...) “Na cidade sois todos irmãos”.
Para Platão, a mãe terra é considerada uma nobre mentira, mas para os povos originários (índios), a mãe terra é algo sagrado, que seu povo pertence à terra onde nasceu, que um dia voltarão para ela e por isso tem uma relação de tremendo respeito com ela. Por mais que possa ser considerado um pensamento mágico, não há dúvidas que a relação destes povos com á terra, não é uma relação de exploração, que ajuda a perpetuar seu povo e sua cultura. E no caso de Platão, por mais que afirme que seja uma nobre mentira, justamente por dizer que é nobre, a entende como uma crença fundamental para união e perpetuação desse povo.

Referências

Cultura Genial - Quadro Operários, de Tarsila do Amaral

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Depois do domingo



Eis que o domingo, que para muitos, por enquanto, é um dia de descanso, termina, e a segunda-feira começa quase que num piscar de olhos. Presume-se que as pessoas estariam descansadas, prontas para resilientemente enfrentar mais uma jornada de trabalho mal remunerado pela frente.

Mas é apenas uma presunção.

Os ombros caídos, os olhos que mal se abrem, a marmita enrolada no saco do supermercado com restos do final de semana; o chacoalhar e as freadas repentinas do busão que fazem nosso corpo dançar involuntariamente uma dança maluca e irritante; o destino que nunca chega, a sensação de claus-tro-fo-bia, o pouco ar para respirar, as encochadas dos machos, as reclamações dos aposentados, o choro das crianças; o preço do ônibus que subiu, o desvio por causa de ruas interditadas que nunca se desinterditam, os motoboys com suas buzinas, as notificações de notícias ruins pelo celular, as caminhonetes dos megalômanos que tomam toda a rua; lá vem os pedintes, os vendedores ambulantes e os pregadores; os caminhões soltando fumaça tóxica; o riacho cheirando esgoto; a chuva que resolveu cair, se fecha a janelinha um calor infernal toma aquela lata de sardinha de uma miserável empresa que não investe UM só centavo, mas que toda semana tenta um aumento novo; os vereadores que votaram o aumento do próprio salário, os empresários que tiveram suas dívidas perdoadas; todos os semáforos fechados, o próximo busão da integração, com lugares vazios para sentar, passando diante de nossos olhos como que rindo da nossa cara e dizendo: "você vai se atrasar pra firma hoje".

E você vai atrasar.

Nem Homero conseguiria imaginar tal Odisseia para Ulisses. Talvez ele achasse que seria tudo muito exagerado, que uma série de desventuras de tal monta fosse improvável, ridícula ou até mesmo muito cruel. Ulisses levara 10 anos para retornar após a Guerra de Troia para seu lar, Ítaca: então imaginar que simples humanos, sem qualquer linhagem com deuses olimpianos, possam passar por tais provações durante praticamente a vida toda, na ida, e na volta, seria um absurdo dos grossos! E de volta para o futuro, sabemos que não é nada absurdo, e que pode ser pior. E que tem dia que é pior.

As curtas horas do fim de semana não dão conta de um merecido descanso, de se deitar longas horas em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, porque a grande máquina de fazer dinheiro precisa de seus operadores e operadoras, de seus braços, pernas, corações e mentes. Ela precisa de seu sacrifício nos altares dos bancos, de seus sorrisos forçados nos reclames do plim-plim, da servidão voluntária _ ou involuntária.

Tenho pena da injustiça que sofre a segunda-feira, sua única culpa é vir depois do domingo...



Crédito da imagem
https://diplomatique.org.br/por-que-a-competitividade-na-licitacao-de-onibus-e-importante/onibus-lotado/
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sábado, 15 de fevereiro de 2020

Carta pra Terra



Querida Terra,

(ou Gaia, Telo, Pachamama, Houtu, Tonantzin, Bhumi, Geb... )

Este que vos escreve tem tanto a dizer, mas não sabe por onde começar.

Sou uma criatura pequenina de uma raça que tem se tornado muito popular nos últimos 5 milênios, que para você não passa de alguns segundos na escala temporal. Há cerca de 300 anos atrás, atingimos nosso primeiro bilhão de seres humanos, e cá estamos beirando os 8 bilhões.

Esse cheiro de fumaça, de esgoto, de chorume, esse calor cada vez maior, essa sujeira, esse cinza-concreto cobrindo a superfície, o plástico espalhado nos lagos, rios e mares e estes rastros de erosão, são um pouco do que nossa raça foi capaz de causar em poucos minutos. E poderia ser pior: temos armas de destruição em massa escondidas _ usadas algumas vezes e podendo ser usadas outras vezes _ capazes de te deixar esburacada tal como a pequena Lua.

Engraçado citar que são pessoas dessa mesma raça que dizem sincera e inocentemente que desejam "te salvar", com o mote: "Salvem o nosso planeta!". E todo mundo deveria saber que você, com tantos mil de milhões de anos, e com tantos problemas que passou, já sabe se virar sozinha. Pena que um dia uma estrela irá ficar tão gigante, que acabará devorando teus irmãos planetas. E você mesma... um dia.

Este que te escreve sabe da inutilidade desse esforço, porque provavelmente jamais será ouvido _ e se não há quem ouça, ora, a comunicação perde seu propósito. Entretanto, é partindo da premissa do fracasso, que preencherei este espaço de muitos (e muitos) bits, para compartilhar com quem quer que seja, um pouco da única arte que acredito ser capaz de fazer: ESCREVER.

Não sei tocar nenhum instrumento, nem pintar quadros ou paredes, nem declamar versos improvisados ou mesmo decorados, nem sequer fazer mágica com baralho ou cantar belas canções. Mas escolher palavras que vem da minha cabeça, e borra-las no papel ou desembaralha-las num teclado digital, talvez seja a única arte que me é possível realizar.

Outra razão para partir da premissa do fracasso, é que a escrita é uma arte cada vez menos contemplada e valorizada, dadas as outras formas de comunicação como vídeos, áudios, infográficos e o escambau, que têm se tornado cada vez mais populares.

Mas acho que o fracasso não deveria nos entristecer tanto assim, pois os palcos, paredes das galerias, estantes de livros são espaços limitados, onde apenas poucos privilegiados têm acesso. E como mencionei no início dessa carta: somos quase 8 bilhões de seres humanos nos acotovelando para apenas sobreviver por pouco menos de 100 anos e um pouco de dignidade. Portanto, o fracasso é mais do que uma mera questão de consciência, é uma grande probabilidade estatística.

Terra, sei que está aí pois estamos aqui, em seu leito. Só peço, inutilmente, que permaneça redonda e girando, e que nos tolere por mais algum tempo.

E quanto a você, que chegou até aqui, te convido à prática das artes e te saúdo por uma vida cheia de fracassos!
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