Carta pra Terra
Querida Terra,
(ou Gaia, Telo, Pachamama, Houtu, Tonantzin, Bhumi, Geb... )
Este que vos escreve tem tanto a dizer, mas não sabe por onde começar.
Sou uma criatura pequenina de uma raça que tem se tornado muito popular nos últimos 5 milênios, que para você não passa de alguns segundos na escala temporal. Há cerca de 300 anos atrás, atingimos nosso primeiro bilhão de seres humanos, e cá estamos beirando os 8 bilhões.
Esse cheiro de fumaça, de esgoto, de chorume, esse calor cada vez maior, essa sujeira, esse cinza-concreto cobrindo a superfície, o plástico espalhado nos lagos, rios e mares e estes rastros de erosão, são um pouco do que nossa raça foi capaz de causar em poucos minutos. E poderia ser pior: temos armas de destruição em massa escondidas _ usadas algumas vezes e podendo ser usadas outras vezes _ capazes de te deixar esburacada tal como a pequena Lua.
Engraçado citar que são pessoas dessa mesma raça que dizem sincera e inocentemente que desejam "te salvar", com o mote: "Salvem o nosso planeta!". E todo mundo deveria saber que você, com tantos mil de milhões de anos, e com tantos problemas que passou, já sabe se virar sozinha. Pena que um dia uma estrela irá ficar tão gigante, que acabará devorando teus irmãos planetas. E você mesma... um dia.
Este que te escreve sabe da inutilidade desse esforço, porque provavelmente jamais será ouvido _ e se não há quem ouça, ora, a comunicação perde seu propósito. Entretanto, é partindo da premissa do fracasso, que preencherei este espaço de muitos (e muitos) bits, para compartilhar com quem quer que seja, um pouco da única arte que acredito ser capaz de fazer: ESCREVER.
Não sei tocar nenhum instrumento, nem pintar quadros ou paredes, nem declamar versos improvisados ou mesmo decorados, nem sequer fazer mágica com baralho ou cantar belas canções. Mas escolher palavras que vem da minha cabeça, e borra-las no papel ou desembaralha-las num teclado digital, talvez seja a única arte que me é possível realizar.
Outra razão para partir da premissa do fracasso, é que a escrita é uma arte cada vez menos contemplada e valorizada, dadas as outras formas de comunicação como vídeos, áudios, infográficos e o escambau, que têm se tornado cada vez mais populares.
Mas acho que o fracasso não deveria nos entristecer tanto assim, pois os palcos, paredes das galerias, estantes de livros são espaços limitados, onde apenas poucos privilegiados têm acesso. E como mencionei no início dessa carta: somos quase 8 bilhões de seres humanos nos acotovelando para apenas sobreviver por pouco menos de 100 anos e um pouco de dignidade. Portanto, o fracasso é mais do que uma mera questão de consciência, é uma grande probabilidade estatística.
Terra, sei que está aí pois estamos aqui, em seu leito. Só peço, inutilmente, que permaneça redonda e girando, e que nos tolere por mais algum tempo.
E quanto a você, que chegou até aqui, te convido à prática das artes e te saúdo por uma vida cheia de fracassos!

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