sexta-feira, 28 de agosto de 2020

A função da crítica

A palavra crítica é de origem grega (kritikós, "apto a julgar") e dentre os vários sinônimos, significa: opinião ou juízo de valor.

No senso comum, a crítica tem uma conotação negativa, como se criticar fosse necessariamente falar mal de algo ou alguém. Em oposição a isto, surgiu a chamada crítica "construtiva", que é uma opinião que tem como objetivo apoiar, incentivar alguém, ainda que, seja para corrigir um comportamento ou forma de pensar.

É fato que existem circunstâncias em que não queremos ouvir uma crítica a respeito de uma opinião ou comportamento, principalmente de pessoas que não tem intimidade suficiente para isso. Quase sempre essa crítica é levada para o lado pessoal, e poderá causar uma chateação no criticado.

Mas esse texto não é sobre exatamente tais circunstâncias ou mesmo temas de cunho pessoal, o objetivo aqui é falar sobre a crítica de temas gerais no chamado espaço público. E quando digo espaço público, não estou evocando o conceito habermasiano de esfera pública, mas falo de quaisquer espaços, mesmo os espaços fechados e temáticos (como associações, partidos, sindicatos, grêmios estudantis, etc), em que há diversas pessoas em posição de emitir suas opiniões e de debater ideias.

A função da crítica

Ao adjetivar a palavra crítica com os termos "construtiva" ou "destrutiva", criamos um pequeno problema: afinal, quem é que vai dizer se uma determinada crítica é positiva ou negativa? Quem emite uma opinião, pode achar que está fazendo algo positivo, enquanto quem a recebe, pode considerar que esta seja negativa.

É para não cairmos em tais subjetividades, que vou falar da função da crítica.

As pessoas reunidas em espaços de debate normalmente possuem propósitos gerais _ que são o horizonte, sua razão de existir _ e objetivos específicos, que são coisas a serem resolvidas ou tarefas a serem executadas no dia a dia. Por exemplo: teoricamente a razão de existir de um sindicato é ser um instrumento de luta da classe trabalhadora, e no dia a dia, executar tarefas específicas, como formação política dos trabalhadores, organização de assembléias, greves, que são coerentes com a razão de ser da organização.

Para que tais associações funcionem bem, seus componentes precisam ter em mente, pelo menos uma noção do que fazer e como fazer _ ou pelo menos ansiar por isso. Tais diretrizes precisam ser debatidas o tempo todo no seio destas organizações, e para que existam tais discussões, é necessário o livre exercício da crítica.

Não é apenas a possibilidade, mas a efetiva ação de expressar as opiniões, e claro, argumentar com o máximo de responsabilidade e clareza possível, que permite com que as organizações executem aquilo que é o sentido de sua existência, que possam se desenvolver e corrigir rumos quando necessário for _ e sempre será.

As divergências internas sempre surgirão, porque os indivíduos pensam e vivem de formas diferentes, e isso nem sequer é o problema, uma vez que isto está dado. A questão das divergências se dá nas "fronteiras internas" de cada um, ou seja, se as divergências forem tão absurdas, a ponto de impossibilitar a associação entre indivíduos em suas organizações. E isso traz o tema inevitável da autocrítica, quando indivíduos e associações precisam olhar para dentro de si e entender se há, e quais são, as transformações correntes, suas repercussões, e os novos rumos a serem adotados.

Neste contexto, a crítica é essencial, e porque não, poderia até ironicamente dizer: ela é construtiva.

Organizar-se com a finalidade única de buscar validação e aprovação dos pares é o caminho para a estagnação, e para a eventual decadência.

Sem o livre exercício da crítica não é possível buscar novos conhecimentos, ainda que seja para prová-los errados. A realidade é um fluxo constante de tranformações, e para podermos captar seu funcionamento e agir sobre ela, é necessário um esforço humano conjunto com ferramentas de análises cada vez mais sofisticadas, não dando vez para a apatia, nem para os dogmas.

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sábado, 25 de julho de 2020

Legião



Passados mais de 120 dias nesta República de Bananas, do que deveria ter sido uma quarentena _ que nunca se realizou na prática _ chegamos aos 84.000 (OITENTA E QUATRO MIL) mortos pela covid-19, e se somarmos as subnotificações e os casos criminosamente notificados como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), já passamos das 100.000 mortes (CEM MIL).

Bolsonaro disse há um certo tempo que a ditadura devia ter matado uns 30 mil, e que ia metralhar a petralhada do Acre, pois fez pior. Bem pior.

Poderia fazer comparações das mais diversas, tentando demonstrar que são mais mortos do que em muitas guerras, que o total é mais do que suportava o falecido Maracanã em seus tempos áureos... mas creio que isso não é mais necessário, quem tem no mínimo dois neurônios sabe a essa altura que é muita gente.

E os iludidos que em algum momento consideraram que tal doença era democrática, espero que tenham acordado a essa altura do campeonato. A única coisa que o Brasil tem de democrático, é a ignorância. As mortes atingem quase que em sua totalidade os mais pobres, de forma que não seria exagero dizer que o país passa por uma limpeza de classe, pelo genocídio de pessoas pobres.

Estamos sob um forte ataque de pessoas que tem muito dinheiro e poder, e que são essas pessoas que ainda mantém um imbecil na presidência, e toda a sua milícia no seu entorno. O Estado não é uma coisa que paira no ar, sua sustentação tem os quatro pés fincados na terra. Alguém criou essa estrutura, e dela se beneficia. Essa grande máquina de moer carne de pobre, que se alimenta do sangue e suor dos explorados.

Uma das grandes tragédias é ver vizinhos, parentes, amigos... enfim, gente como a gente, que também sofre com a tortura e o açoite, que não apenas se curvam parente os senhores, mas que os louvam, os saúdam e os defendam. E infelizmente, além de vítimas, se tornam cúmplices e algozes de toda a desgraça que recai sobre esta maldita sociedade.

Estamos perante um momento de profunda desgraça neste país. E os desgraçados são legião, porque são muitos. 
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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Liberdade, liberdade




Faz alguns anos, aqui nesse grande latifúndio chamado Brasil, temos vivido situações das mais absurdas em quaisquer campos da vida que possamos imaginar. Certos episódios deixam no chinelo qualquer distopia dos anos pós segunda guerra _ escolha qualquer uma _ ou série de streaming.

O sistema em que nos encontramos _ e seu nome é: capitalismo _ para funcionar a pleno vapor, implantou sua propaganda de forma eficiente _ repetitiva _ ecoando seus princípios e valores, a fim de domar os corações e mentes de homens e mulheres, para que pudessem aceitar e se submeterem a seu funcionamento.

Muitas situações absurdas, são diariamente normalizadas pela propaganda, que são financiadas pelos donos da grana, que se utilizam de seus inúmeros servis intérpretes: políticos, líderes religiosos, especialistas das mais diversas áreas, que vêm falar ao povo, através de todas as mídias possíveis, como as reformas _ escolha qualquer uma _ são boas e foram feitas para melhorar a vida de todos. Porém, esse TODOS, é claro, são apenas alguns.

Porque pensemos: os donos da grana _ os capitalistas _ para poderem ter grana, precisam que outras pessoas produzam coisas, e que eles, fiquem com a maior parte do que é produzido, que é aquilo que chamamos de lucro.

Num mundo justo, as pessoas não aceitariam produzir algo, e permitir que uma outra pessoa (que nada fez, diga-se) ficasse com quase tudo que foi produzido por ela.

Só que essa pessoa que ficou com tudo que foi feito pelos outros _ e mais tantas outras iguais a ela _ tem grana o suficiente para financiar de mercenários (que se valem da violência) até profetas (que se valem da manipulação), para que consigam manter as coisas funcionando tal como estão. Esse tipo de sistema mantém os exploradores, ricos, e os explorados, pobres.

O tipo de pobreza que se mantém, é das mais desgraçadas possíveis. Entre os valores nos quais se baseia uma sociedade capitalista, é o de conferir status a uma pessoa pelos objetos que ela possui e pela aparência que ela demonstra. Para atingir a este status, e ser tratado como uma pessoa digna de respeito e afeto, é necessário o tal do dinheiro. E esse mesmo dinheiro será necessário para que a pessoa não passe fome, ou não morra na primeira frente fria que surja pela frente, porque esse mesmo sistema, cria barreiras das mais diversas, que possibilitem que uma pessoa consiga prover-se por si própria, que tenha um pedaço de chão e meios de subsistir.   

É um sistema que não apenas cria pobreza na exploração da mão de obra, mas cria pobreza ao tornar tudo propriedade privada, e tomando todas as propriedades para si.

Quais opções restam aos pobres num sistema onde um grupo de ricos toma tudo para si, e não oferece nada aos demais, deixando como escolha única _ o que é um paradoxo _ a chance que a pessoa tente vender sua força de trabalho em troca de migalhas que apenas garantem que esta não morrerá de fome?

Claro, num sistema como este, quando falamos de ricos e pobres, exploradores e explorados, temos pessoas em vários níveis diferentes, do chamado pela sociologia, estrato social. De forma resumida, existem os muito ricos, os menos ricos, os da classe média, os pobres e os miseráveis.

Aqueles que se situam próximos as classes médias, alimentam dentro de si tanto uma expectativa de terem mais do que têm um dia, quanto um medo de descerem degraus dessa escada e se tornarem eles, pobres. É certo que o medo é muito grande, o que normalmente torna tais indivíduos conservadores de sua posição social _ e conforme o medo da perda aumenta, os torna reacionários.

Quanto a expectativa que esse povo do meio do estrato social cria em se tornar elite um dia, os impulsionam a olhar para a cultura daqueles que eles admiram e sonham quem sabe ser um dia.

Essa visão da vida social em estratos, ou em escada, ou pirâmide, onde o topo é dos ricos, e a base é dos pobres, e que misturado com uma estrutura social que fomenta além das desigualdades, fomenta também o individualismo e a competição, fará disso tudo um salve-se quem puder, cujas consequências só podem ser o aumento das desigualdades, a destruição dos laços humanos, e acirramento das tensões sociais e a destruição da natureza.

Podem mudar os políticos, as formas de governo, os sobrenomes dos capitalistas por mudar, toda uma geração de trabalhadores e trabalhadoras podem morrer, mas se estas estruturas sociais continuarem funcionando sob a mesma lógica que tem funcionado, vão replicar este modelo desgraçado de sociedade em que vivemos. 

A sociedade não é resultado de uma soma de indivíduos, e nem de suas ações individuais, ou mesmo em grupos, agindo de forma desorganizada e sem propósito. É como dirigir com os olhos vendados _ além de não saber para onde ir, pode-se quebrar a cara a qualquer momento.

Os exploradores, os endinheirados, ainda que eles sejam competidores entre si, e queiram destruir-se mutuamente, sabem exatamente o que querem, e no limite, quando precisam juntar-se para defender seus interesses, eles os fazem, como sempre fizeram.

Eu ia dizer que um dia os explorados desse mundo terão que aprender a se organizar e lutar, se quiserem libertar-se de verdade. Mas esse "um dia", é na realidade hoje!

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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Mundo novo



Logo o número de casos no mundo da pandemia do coronavírus passarão de um milhão, o número de mortos pela doença logo entrará na casa dos 50.000, sem contar a quantidade de pessoas morrendo em suas casas ou nas ruas, por não poderem ser atendidas nos hospitais, lotados com pessoas infectadas.

Contágio; morte; vírus; quarentena; isolamento / distanciamento social; ficar em casa; higiene; lavar as mãos; álcool em gel; máscaras ... são muitas das palavras-chave que tem ocupado nosso vocabulário nos últimos meses, e que possivelmente continuarão a ocupar nos próximos.

É uma situação terrível, tanto, que nos têm mostrado o pior da face humana quando pessoas que juram que são boas, minimizam mortes de certos grupos de pessoas _ os tais grupos de risco _ como se seu sacrifício fosse necessário, como se fossem vidas mais descartáveis do que a sua própria. Muitos destes cidadãos de bem alegam se preocupar com uma economia que sequer lhes favorece, que apenas enriquece uma meia dúzia de empresários, além das elites políticas e do judiciário. Esses pobres coitados que exigem sacrifícios de outros pobres coitados, mas que morrem de medo de cobrar daqueles que mais têm: dos ricos. Essa forma torpe de viver os levam a aceitar e propor um falso dilema: ou a economia, ou a vida.

Não poderia deixar de citar a crise econômica que já estava instalada, os altos níveis de desemprego, desalento, a uberização, precarização e superexploração da força de trabalho, aos cortes de direitos dos trabalhadores, cortes na saúde, educação, ciência e programas sociais, o maldito teto de gastos, a destruição da previdência, o continuado genocídio dos povos indígenas e da população jovem, pobre e negra e a destruição sem precedentes da natureza.

Esse é o atual fundo do poço _ e cavando.

Essa realidade é de fato enlouquecedora, e tende a nos causar um pessimismo dos mais aterradores.

Mesmo assim, muitos e muitas de nós continuam resistindo e tocando as suas vidas como é possível. Estamos respirando, e talvez desistir não seja uma questão de escolha, mas sim um impulso natural que vem dentro. Essa força, essa potência de agir, que desconheço sua origem _ e por isso não faço atribuições de onde venha _ aumenta quando estamos no meio daqueles que amamos, quando afetamos ou somos afetados por boas ações, quando somos capazes de sermos tocados pela beleza e simplicidade da natureza, quando as manifestações culturais e artísticas nos trazem novos significados e novas perspectivas de vida.

Essa força que se manifesta em nosso meio, e nos dá sentido, é sempre mais forte quando estamos juntos, quando temos a mente aberta a nos espantamos com o mundo e sua diversidade. Essa força precisa ser renovada, precisa ser fortalecida, e canalizada para reconhecermos e enfrentarmos esse mundo novo que se apresenta diante de nós.

Difícil dizer exatamente quais caminhos seguir, mas certamente seguir os caminhos que fizeram com que chegássemos até aqui, de fato não vai dar certo. Um mundo que se supõe ser dividido entre vitoriosos e derrotados, um mundo onde os valores individuais, a competição e o enriquecimento são endeusados, um mundo onde as pessoas valem pelo que têm no bolso... esse mundo nos trouxe até aqui!

Devemos deixar esse mundo para trás, torná-lo obsoleto e construirmos um mundo novo sob seus escombros!

... enquanto ainda temos chance.

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quinta-feira, 5 de março de 2020

Que cidade?



Pode-se dizer que uma cidade é um espaço geográfico politicamente delimitado.

Mas para cada um de nós, a cidade é a nossa relação com determinados espaços dentro dessa "caixa de areia".

Para muita gente a cidade é só o caminho de casa até o trabalho; da escola até a casa; da igreja até a praça passando pelo mercadinho até a casa; ou mesmo da casa até o boteco.

Falar então em apropriação da própria cidade, seria ampliar o acesso, poder estar em mais lugares e interagir com estes espaços.

Em ano eleitoral, muito se fala sobre os problemas da cidade, propostas e promessas serão feitas.

Acredito que caiba aqui a pergunta: quando falamos da nossa cidade _ desse espaço geográfico politicamente delimitado _ de que cidade estamos falando?
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Pensar-se brasileiro

Operários (1933) - Tarsila do Amaral

Normalmente quando falamos de filosofia, vem a mente figuras (de homens) como Platão, Sócrates, Aristóteles, Descartes, Schopenhauer, Nietzsche, Sartre, Foucault entre outros. Muitos destes nomes são difíceis de escrever e até pronunciar, o que denota de certa forma que não vieram desta terra onde tem palmeiras e onde canta o sabiá.

Um pouco de contexto

Acho necessário contextualizar que esse pedação de terra que chamamos de Brasil, há cerca de 500 anos atrás, era habitado pelos povos originários que tinham suas culturas, crenças e costumes próprios. Os europeus em busca de novos mercados e matérias primas, após aprenderem a arte da navegação, conseguiram chegar nestas terras, dizimaram e escravizaram estes povos, tomaram e colonizaram suas terras, exploraram _ com mais mão de obra escravizada negra vinda da África _ e exportaram suas riquezas de volta para a Europa, onde hoje vivem muito bem, obrigado.

Com o início do movimento antiescravagista, produziram uma onda de imigrações, dessa vez de europeus, para substituir a mão de obra escrava, e de quebra promover um branqueamento do país, pois para políticos e certos intelectuais da época, a miscigenação era o motivo do atraso do país _ atraso aqui entendido como não entrada no chamado mundo moderno e industrializado.

Após a guerra civil dos EUA, este entrou forte com sua influência e porrete na América Latina, que fez permanecer e até aumentar o sentido das economias destes países, como basicamente grandes latifúndios produtores e exportadores de produtos primários (matérias primas), e importadores de produtos acabados _ que são mais caros que os produtos primários, e tornam a balança comercial mais favorável para aqueles que exportam tais produtos acabados.

Com a entrada do Brasil _ e demais países do chamado terceiro mundo _ na era da industrialização, mantendo sua dominação financeira e comprando influências, as grandes potências passaram a instalar suas fábricas (as transnacionais), explorando novamente e ainda as terras brasileiras, seus "recursos naturais", pagando salários bem menores do que pagam em seus próprios países, e no final pegando essa riqueza produzida por mãos brasileiras, e levando para seus países. Onde como já sabemos, passam bem, obrigado.

Voltando ao raciocínio inicial

Comecei falando de filosofia e acabei tendo que me desviar num certo resumo da história brasileira, e isso não foi à toa.

Para começar a pensar enquanto brasileiros e brasileiras, creio ser necessário entendermos nossas raízes, entendermos nosso lugar no mundo, termos pelo menos uma noção da nossa constituição enquanto povo e nação.  Em meio a colonização, importação de povos escravizados, povos originários, imigrações tardias, existe um ser brasileiro? Se existe, como surgiu, como se identifica e quais suas visões de mundo? O que é esse ser brasileiro?

Quando pensamos a vida, o fazemos no espaço e no tempo. Cada mente tem suas possibilidades de abstrações, de viajar para lugares que já existiram ou que talvez ainda vão existir. Mas essa mente está presa a um corpo histórico: um corpo preso no tempo e no espaço. E este corpo está sujeito às influências culturais (à língua, às crenças, comportamentos, etc), aos valores familiares e da sociedade em que está inserido num determinado período no tempo.

Platão por mais que tenha deixado muitos escritos, refletindo sobre vários assuntos, era um homem preso no espaço e tempo, influenciado pela cultura e costumes desta sociedade, e que também pensou questões do seu tempo. Em sua obra A República, debruçou-se sobre a questão da cidade ideal e do governo ideal, chegando a conclusão que a aristocracia (o governo dos bons, no sentido de mais capazes) era a melhor forma de governo (ele abominava a ideia de democracia) e que os mais aptos para governar (ora, ora) seriam os reis-filósofos.

Uma pergunta aqui se faz necessária: Que filósofos Platão leu? Você deve se lembrar que ele foi pupilo de Sócrates, e isso pode ser parte da resposta, então mudo a pergunta: Que autores Sócrates leu? E se leu quaisquer autores, o que estes leram antes?

Essa pequena digressão é apenas para ilustrar algo que considero importante: se consideramos a filosofia ou como o amor pelo conhecimento, ou como um processo de reflexão sobre o mundo, tal processo pode ser feito por qualquer pessoa que tenha a capacidade de refletir, em qualquer parte do mundo e em qualquer época.

Sendo nós seres humanos, brasileiros e brasileiras, temos também a capacidade de fazê-lo, e não precisamos necessariamente fazer isso partindo de premissas e ideias que não são às nossas, de problemas que não são os nossos. Podemos pensar o mundo a partir das nossas angústias e inquietações, dos nossos problemas e desafios, dos nossos valores e costumes.

Não estou aqui dizendo que devamos rejeitar o pensamento considerado estrangeiro, não se trata disso.

Devemos sim dialogar com este pensamento, tentar entender o que Descartes tem a nos dizer sobre questões que nos afligem, e conversar com suas ideias. Não rejeitá-las logo de cara, mas também não agir de forma dogmática e subalterna, simplesmente importando tais ideias acriticamente porque dizem que este homem francês, também fruto de seu tempo, é um filósofo que está num certo pedestal do pensamento universal (?) e cujas ideias devem ser veneradas porque sim.

Para um país que foi colônia por mais de 300 anos, e que ainda sofre forte influência da cultura estrangeira, majoritariamente ocidental-europeia, e que enxerga esta cultura exógena como superior, moral e bela, tentar pensar a si próprio, descolonizar o próprio pensamento, é um desafio imenso, e acredito que mais do que necessário.

Para que pensar-se brasileiro?

Deixo essa reflexão para ilustrar um pouco da importância do pensar-se como parte integrante de um determinado povo, que vive em seu próprio território num dado tempo mundo.

No terceiro capítulo da República, Platão, através de Sócrates, menciona que para que o povo se mantenha unido, este povo precisa acreditar numa nobre mentira:
Sócrates — (...) Começarei por tentar convencer os chefes e os soldados, em seguida os outros cidadãos, de que tudo o que lhes ensinamos, educando-os e instruindo-os, tudo aquilo de que julgamos ter o conhecimento e a experiência, não passava, por assim dizer, de sonho; que, na realidade, eram então formados e criados no seio da terra, eles, as suas armas e tudo o que lhes pertence; que, depois de os ter formado inteiramente, a terra, a sua mãe, lhes deu â luz; que, por isso, devem considerar a região que habitam como a sua mãe e ama, defendê-la contra quem a atacar e tratar os outros cidadãos como irmãos, filhos da terra como eles (...) “Na cidade sois todos irmãos”.
Para Platão, a mãe terra é considerada uma nobre mentira, mas para os povos originários (índios), a mãe terra é algo sagrado, que seu povo pertence à terra onde nasceu, que um dia voltarão para ela e por isso tem uma relação de tremendo respeito com ela. Por mais que possa ser considerado um pensamento mágico, não há dúvidas que a relação destes povos com á terra, não é uma relação de exploração, que ajuda a perpetuar seu povo e sua cultura. E no caso de Platão, por mais que afirme que seja uma nobre mentira, justamente por dizer que é nobre, a entende como uma crença fundamental para união e perpetuação desse povo.

Referências

Cultura Genial - Quadro Operários, de Tarsila do Amaral

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Depois do domingo



Eis que o domingo, que para muitos, por enquanto, é um dia de descanso, termina, e a segunda-feira começa quase que num piscar de olhos. Presume-se que as pessoas estariam descansadas, prontas para resilientemente enfrentar mais uma jornada de trabalho mal remunerado pela frente.

Mas é apenas uma presunção.

Os ombros caídos, os olhos que mal se abrem, a marmita enrolada no saco do supermercado com restos do final de semana; o chacoalhar e as freadas repentinas do busão que fazem nosso corpo dançar involuntariamente uma dança maluca e irritante; o destino que nunca chega, a sensação de claus-tro-fo-bia, o pouco ar para respirar, as encochadas dos machos, as reclamações dos aposentados, o choro das crianças; o preço do ônibus que subiu, o desvio por causa de ruas interditadas que nunca se desinterditam, os motoboys com suas buzinas, as notificações de notícias ruins pelo celular, as caminhonetes dos megalômanos que tomam toda a rua; lá vem os pedintes, os vendedores ambulantes e os pregadores; os caminhões soltando fumaça tóxica; o riacho cheirando esgoto; a chuva que resolveu cair, se fecha a janelinha um calor infernal toma aquela lata de sardinha de uma miserável empresa que não investe UM só centavo, mas que toda semana tenta um aumento novo; os vereadores que votaram o aumento do próprio salário, os empresários que tiveram suas dívidas perdoadas; todos os semáforos fechados, o próximo busão da integração, com lugares vazios para sentar, passando diante de nossos olhos como que rindo da nossa cara e dizendo: "você vai se atrasar pra firma hoje".

E você vai atrasar.

Nem Homero conseguiria imaginar tal Odisseia para Ulisses. Talvez ele achasse que seria tudo muito exagerado, que uma série de desventuras de tal monta fosse improvável, ridícula ou até mesmo muito cruel. Ulisses levara 10 anos para retornar após a Guerra de Troia para seu lar, Ítaca: então imaginar que simples humanos, sem qualquer linhagem com deuses olimpianos, possam passar por tais provações durante praticamente a vida toda, na ida, e na volta, seria um absurdo dos grossos! E de volta para o futuro, sabemos que não é nada absurdo, e que pode ser pior. E que tem dia que é pior.

As curtas horas do fim de semana não dão conta de um merecido descanso, de se deitar longas horas em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, porque a grande máquina de fazer dinheiro precisa de seus operadores e operadoras, de seus braços, pernas, corações e mentes. Ela precisa de seu sacrifício nos altares dos bancos, de seus sorrisos forçados nos reclames do plim-plim, da servidão voluntária _ ou involuntária.

Tenho pena da injustiça que sofre a segunda-feira, sua única culpa é vir depois do domingo...



Crédito da imagem
https://diplomatique.org.br/por-que-a-competitividade-na-licitacao-de-onibus-e-importante/onibus-lotado/
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sábado, 15 de fevereiro de 2020

Carta pra Terra



Querida Terra,

(ou Gaia, Telo, Pachamama, Houtu, Tonantzin, Bhumi, Geb... )

Este que vos escreve tem tanto a dizer, mas não sabe por onde começar.

Sou uma criatura pequenina de uma raça que tem se tornado muito popular nos últimos 5 milênios, que para você não passa de alguns segundos na escala temporal. Há cerca de 300 anos atrás, atingimos nosso primeiro bilhão de seres humanos, e cá estamos beirando os 8 bilhões.

Esse cheiro de fumaça, de esgoto, de chorume, esse calor cada vez maior, essa sujeira, esse cinza-concreto cobrindo a superfície, o plástico espalhado nos lagos, rios e mares e estes rastros de erosão, são um pouco do que nossa raça foi capaz de causar em poucos minutos. E poderia ser pior: temos armas de destruição em massa escondidas _ usadas algumas vezes e podendo ser usadas outras vezes _ capazes de te deixar esburacada tal como a pequena Lua.

Engraçado citar que são pessoas dessa mesma raça que dizem sincera e inocentemente que desejam "te salvar", com o mote: "Salvem o nosso planeta!". E todo mundo deveria saber que você, com tantos mil de milhões de anos, e com tantos problemas que passou, já sabe se virar sozinha. Pena que um dia uma estrela irá ficar tão gigante, que acabará devorando teus irmãos planetas. E você mesma... um dia.

Este que te escreve sabe da inutilidade desse esforço, porque provavelmente jamais será ouvido _ e se não há quem ouça, ora, a comunicação perde seu propósito. Entretanto, é partindo da premissa do fracasso, que preencherei este espaço de muitos (e muitos) bits, para compartilhar com quem quer que seja, um pouco da única arte que acredito ser capaz de fazer: ESCREVER.

Não sei tocar nenhum instrumento, nem pintar quadros ou paredes, nem declamar versos improvisados ou mesmo decorados, nem sequer fazer mágica com baralho ou cantar belas canções. Mas escolher palavras que vem da minha cabeça, e borra-las no papel ou desembaralha-las num teclado digital, talvez seja a única arte que me é possível realizar.

Outra razão para partir da premissa do fracasso, é que a escrita é uma arte cada vez menos contemplada e valorizada, dadas as outras formas de comunicação como vídeos, áudios, infográficos e o escambau, que têm se tornado cada vez mais populares.

Mas acho que o fracasso não deveria nos entristecer tanto assim, pois os palcos, paredes das galerias, estantes de livros são espaços limitados, onde apenas poucos privilegiados têm acesso. E como mencionei no início dessa carta: somos quase 8 bilhões de seres humanos nos acotovelando para apenas sobreviver por pouco menos de 100 anos e um pouco de dignidade. Portanto, o fracasso é mais do que uma mera questão de consciência, é uma grande probabilidade estatística.

Terra, sei que está aí pois estamos aqui, em seu leito. Só peço, inutilmente, que permaneça redonda e girando, e que nos tolere por mais algum tempo.

E quanto a você, que chegou até aqui, te convido à prática das artes e te saúdo por uma vida cheia de fracassos!
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