A palavra crítica é de origem grega (kritikós, "apto a julgar") e dentre os vários sinônimos, significa: opinião ou juízo de valor.
No senso comum, a crítica tem uma conotação negativa, como se criticar fosse necessariamente falar mal de algo ou alguém. Em oposição a isto, surgiu a chamada crítica "construtiva", que é uma opinião que tem como objetivo apoiar, incentivar alguém, ainda que, seja para corrigir um comportamento ou forma de pensar.
É fato que existem circunstâncias em que não queremos ouvir uma crítica a respeito de uma opinião ou comportamento, principalmente de pessoas que não tem intimidade suficiente para isso. Quase sempre essa crítica é levada para o lado pessoal, e poderá causar uma chateação no criticado.
Mas esse texto não é sobre exatamente tais circunstâncias ou mesmo temas de cunho pessoal, o objetivo aqui é falar sobre a crítica de temas gerais no chamado espaço público. E quando digo espaço público, não estou evocando o conceito habermasiano de esfera pública, mas falo de quaisquer espaços, mesmo os espaços fechados e temáticos (como associações, partidos, sindicatos, grêmios estudantis, etc), em que há diversas pessoas em posição de emitir suas opiniões e de debater ideias.
A função da crítica
Ao adjetivar a palavra crítica com os termos "construtiva" ou "destrutiva", criamos um pequeno problema: afinal, quem é que vai dizer se uma determinada crítica é positiva ou negativa? Quem emite uma opinião, pode achar que está fazendo algo positivo, enquanto quem a recebe, pode considerar que esta seja negativa.
É para não cairmos em tais subjetividades, que vou falar da função da crítica.
As pessoas reunidas em espaços de debate normalmente possuem propósitos gerais _ que são o horizonte, sua razão de existir _ e objetivos específicos, que são coisas a serem resolvidas ou tarefas a serem executadas no dia a dia. Por exemplo: teoricamente a razão de existir de um sindicato é ser um instrumento de luta da classe trabalhadora, e no dia a dia, executar tarefas específicas, como formação política dos trabalhadores, organização de assembléias, greves, que são coerentes com a razão de ser da organização.
Para que tais associações funcionem bem, seus componentes precisam ter em mente, pelo menos uma noção do que fazer e como fazer _ ou pelo menos ansiar por isso. Tais diretrizes precisam ser debatidas o tempo todo no seio destas organizações, e para que existam tais discussões, é necessário o livre exercício da crítica.
Não é apenas a possibilidade, mas a efetiva ação de expressar as opiniões, e claro, argumentar com o máximo de responsabilidade e clareza possível, que permite com que as organizações executem aquilo que é o sentido de sua existência, que possam se desenvolver e corrigir rumos quando necessário for _ e sempre será.
As divergências internas sempre surgirão, porque os indivíduos pensam e vivem de formas diferentes, e isso nem sequer é o problema, uma vez que isto está dado. A questão das divergências se dá nas "fronteiras internas" de cada um, ou seja, se as divergências forem tão absurdas, a ponto de impossibilitar a associação entre indivíduos em suas organizações. E isso traz o tema inevitável da autocrítica, quando indivíduos e associações precisam olhar para dentro de si e entender se há, e quais são, as transformações correntes, suas repercussões, e os novos rumos a serem adotados.
Neste contexto, a crítica é essencial, e porque não, poderia até ironicamente dizer: ela é construtiva.
Organizar-se com a finalidade única de buscar validação e aprovação dos pares é o caminho para a estagnação, e para a eventual decadência.
Sem o livre exercício da crítica não é possível buscar novos conhecimentos, ainda que seja para prová-los errados. A realidade é um fluxo constante de tranformações, e para podermos captar seu funcionamento e agir sobre ela, é necessário um esforço humano conjunto com ferramentas de análises cada vez mais sofisticadas, não dando vez para a apatia, nem para os dogmas.







