quarta-feira, 1 de abril de 2020

Mundo novo



Logo o número de casos no mundo da pandemia do coronavírus passarão de um milhão, o número de mortos pela doença logo entrará na casa dos 50.000, sem contar a quantidade de pessoas morrendo em suas casas ou nas ruas, por não poderem ser atendidas nos hospitais, lotados com pessoas infectadas.

Contágio; morte; vírus; quarentena; isolamento / distanciamento social; ficar em casa; higiene; lavar as mãos; álcool em gel; máscaras ... são muitas das palavras-chave que tem ocupado nosso vocabulário nos últimos meses, e que possivelmente continuarão a ocupar nos próximos.

É uma situação terrível, tanto, que nos têm mostrado o pior da face humana quando pessoas que juram que são boas, minimizam mortes de certos grupos de pessoas _ os tais grupos de risco _ como se seu sacrifício fosse necessário, como se fossem vidas mais descartáveis do que a sua própria. Muitos destes cidadãos de bem alegam se preocupar com uma economia que sequer lhes favorece, que apenas enriquece uma meia dúzia de empresários, além das elites políticas e do judiciário. Esses pobres coitados que exigem sacrifícios de outros pobres coitados, mas que morrem de medo de cobrar daqueles que mais têm: dos ricos. Essa forma torpe de viver os levam a aceitar e propor um falso dilema: ou a economia, ou a vida.

Não poderia deixar de citar a crise econômica que já estava instalada, os altos níveis de desemprego, desalento, a uberização, precarização e superexploração da força de trabalho, aos cortes de direitos dos trabalhadores, cortes na saúde, educação, ciência e programas sociais, o maldito teto de gastos, a destruição da previdência, o continuado genocídio dos povos indígenas e da população jovem, pobre e negra e a destruição sem precedentes da natureza.

Esse é o atual fundo do poço _ e cavando.

Essa realidade é de fato enlouquecedora, e tende a nos causar um pessimismo dos mais aterradores.

Mesmo assim, muitos e muitas de nós continuam resistindo e tocando as suas vidas como é possível. Estamos respirando, e talvez desistir não seja uma questão de escolha, mas sim um impulso natural que vem dentro. Essa força, essa potência de agir, que desconheço sua origem _ e por isso não faço atribuições de onde venha _ aumenta quando estamos no meio daqueles que amamos, quando afetamos ou somos afetados por boas ações, quando somos capazes de sermos tocados pela beleza e simplicidade da natureza, quando as manifestações culturais e artísticas nos trazem novos significados e novas perspectivas de vida.

Essa força que se manifesta em nosso meio, e nos dá sentido, é sempre mais forte quando estamos juntos, quando temos a mente aberta a nos espantamos com o mundo e sua diversidade. Essa força precisa ser renovada, precisa ser fortalecida, e canalizada para reconhecermos e enfrentarmos esse mundo novo que se apresenta diante de nós.

Difícil dizer exatamente quais caminhos seguir, mas certamente seguir os caminhos que fizeram com que chegássemos até aqui, de fato não vai dar certo. Um mundo que se supõe ser dividido entre vitoriosos e derrotados, um mundo onde os valores individuais, a competição e o enriquecimento são endeusados, um mundo onde as pessoas valem pelo que têm no bolso... esse mundo nos trouxe até aqui!

Devemos deixar esse mundo para trás, torná-lo obsoleto e construirmos um mundo novo sob seus escombros!

... enquanto ainda temos chance.

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