Depois do domingo
Eis que o domingo, que para muitos, por enquanto, é um dia de descanso, termina, e a segunda-feira começa quase que num piscar de olhos. Presume-se que as pessoas estariam descansadas, prontas para resilientemente enfrentar mais uma jornada de trabalho mal remunerado pela frente.
Mas é apenas uma presunção.
Os ombros caídos, os olhos que mal se abrem, a marmita enrolada no saco do supermercado com restos do final de semana; o chacoalhar e as freadas repentinas do busão que fazem nosso corpo dançar involuntariamente uma dança maluca e irritante; o destino que nunca chega, a sensação de claus-tro-fo-bia, o pouco ar para respirar, as encochadas dos machos, as reclamações dos aposentados, o choro das crianças; o preço do ônibus que subiu, o desvio por causa de ruas interditadas que nunca se desinterditam, os motoboys com suas buzinas, as notificações de notícias ruins pelo celular, as caminhonetes dos megalômanos que tomam toda a rua; lá vem os pedintes, os vendedores ambulantes e os pregadores; os caminhões soltando fumaça tóxica; o riacho cheirando esgoto; a chuva que resolveu cair, se fecha a janelinha um calor infernal toma aquela lata de sardinha de uma miserável empresa que não investe UM só centavo, mas que toda semana tenta um aumento novo; os vereadores que votaram o aumento do próprio salário, os empresários que tiveram suas dívidas perdoadas; todos os semáforos fechados, o próximo busão da integração, com lugares vazios para sentar, passando diante de nossos olhos como que rindo da nossa cara e dizendo: "você vai se atrasar pra firma hoje".
E você vai atrasar.
Nem Homero conseguiria imaginar tal Odisseia para Ulisses. Talvez ele achasse que seria tudo muito exagerado, que uma série de desventuras de tal monta fosse improvável, ridícula ou até mesmo muito cruel. Ulisses levara 10 anos para retornar após a Guerra de Troia para seu lar, Ítaca: então imaginar que simples humanos, sem qualquer linhagem com deuses olimpianos, possam passar por tais provações durante praticamente a vida toda, na ida, e na volta, seria um absurdo dos grossos! E de volta para o futuro, sabemos que não é nada absurdo, e que pode ser pior. E que tem dia que é pior.
As curtas horas do fim de semana não dão conta de um merecido descanso, de se deitar longas horas em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo, porque a grande máquina de fazer dinheiro precisa de seus operadores e operadoras, de seus braços, pernas, corações e mentes. Ela precisa de seu sacrifício nos altares dos bancos, de seus sorrisos forçados nos reclames do plim-plim, da servidão voluntária _ ou involuntária.
Tenho pena da injustiça que sofre a segunda-feira, sua única culpa é vir depois do domingo...
Crédito da imagem
https://diplomatique.org.br/por-que-a-competitividade-na-licitacao-de-onibus-e-importante/onibus-lotado/

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