![]() |
| Operários (1933) - Tarsila do Amaral |
Normalmente quando falamos de filosofia, vem a mente figuras (de homens) como Platão, Sócrates, Aristóteles, Descartes, Schopenhauer, Nietzsche, Sartre, Foucault entre outros. Muitos destes nomes são difíceis de escrever e até pronunciar, o que denota de certa forma que não vieram desta terra onde tem palmeiras e onde canta o sabiá.
Um pouco de contexto
Acho necessário contextualizar que esse pedação de terra que chamamos de Brasil, há cerca de 500 anos atrás, era habitado pelos povos originários que tinham suas culturas, crenças e costumes próprios. Os europeus em busca de novos mercados e matérias primas, após aprenderem a arte da navegação, conseguiram chegar nestas terras, dizimaram e escravizaram estes povos, tomaram e colonizaram suas terras, exploraram _ com mais mão de obra escravizada negra vinda da África _ e exportaram suas riquezas de volta para a Europa, onde hoje vivem muito bem, obrigado.
Com o início do movimento antiescravagista, produziram uma onda de imigrações, dessa vez de europeus, para substituir a mão de obra escrava, e de quebra promover um branqueamento do país, pois para políticos e certos intelectuais da época, a miscigenação era o motivo do atraso do país _ atraso aqui entendido como não entrada no chamado mundo moderno e industrializado.
Após a guerra civil dos EUA, este entrou forte com sua influência e porrete na América Latina, que fez permanecer e até aumentar o sentido das economias destes países, como basicamente grandes latifúndios produtores e exportadores de produtos primários (matérias primas), e importadores de produtos acabados _ que são mais caros que os produtos primários, e tornam a balança comercial mais favorável para aqueles que exportam tais produtos acabados.
Com a entrada do Brasil _ e demais países do chamado terceiro mundo _ na era da industrialização, mantendo sua dominação financeira e comprando influências, as grandes potências passaram a instalar suas fábricas (as transnacionais), explorando novamente e ainda as terras brasileiras, seus "recursos naturais", pagando salários bem menores do que pagam em seus próprios países, e no final pegando essa riqueza produzida por mãos brasileiras, e levando para seus países. Onde como já sabemos, passam bem, obrigado.
Para começar a pensar enquanto brasileiros e brasileiras, creio ser necessário entendermos nossas raízes, entendermos nosso lugar no mundo, termos pelo menos uma noção da nossa constituição enquanto povo e nação. Em meio a colonização, importação de povos escravizados, povos originários, imigrações tardias, existe um ser brasileiro? Se existe, como surgiu, como se identifica e quais suas visões de mundo? O que é esse ser brasileiro?
Quando pensamos a vida, o fazemos no espaço e no tempo. Cada mente tem suas possibilidades de abstrações, de viajar para lugares que já existiram ou que talvez ainda vão existir. Mas essa mente está presa a um corpo histórico: um corpo preso no tempo e no espaço. E este corpo está sujeito às influências culturais (à língua, às crenças, comportamentos, etc), aos valores familiares e da sociedade em que está inserido num determinado período no tempo.
Platão por mais que tenha deixado muitos escritos, refletindo sobre vários assuntos, era um homem preso no espaço e tempo, influenciado pela cultura e costumes desta sociedade, e que também pensou questões do seu tempo. Em sua obra A República, debruçou-se sobre a questão da cidade ideal e do governo ideal, chegando a conclusão que a aristocracia (o governo dos bons, no sentido de mais capazes) era a melhor forma de governo (ele abominava a ideia de democracia) e que os mais aptos para governar (ora, ora) seriam os reis-filósofos.
Uma pergunta aqui se faz necessária: Que filósofos Platão leu? Você deve se lembrar que ele foi pupilo de Sócrates, e isso pode ser parte da resposta, então mudo a pergunta: Que autores Sócrates leu? E se leu quaisquer autores, o que estes leram antes?
Essa pequena digressão é apenas para ilustrar algo que considero importante: se consideramos a filosofia ou como o amor pelo conhecimento, ou como um processo de reflexão sobre o mundo, tal processo pode ser feito por qualquer pessoa que tenha a capacidade de refletir, em qualquer parte do mundo e em qualquer época.
Sendo nós seres humanos, brasileiros e brasileiras, temos também a capacidade de fazê-lo, e não precisamos necessariamente fazer isso partindo de premissas e ideias que não são às nossas, de problemas que não são os nossos. Podemos pensar o mundo a partir das nossas angústias e inquietações, dos nossos problemas e desafios, dos nossos valores e costumes.
Não estou aqui dizendo que devamos rejeitar o pensamento considerado estrangeiro, não se trata disso.
Devemos sim dialogar com este pensamento, tentar entender o que Descartes tem a nos dizer sobre questões que nos afligem, e conversar com suas ideias. Não rejeitá-las logo de cara, mas também não agir de forma dogmática e subalterna, simplesmente importando tais ideias acriticamente porque dizem que este homem francês, também fruto de seu tempo, é um filósofo que está num certo pedestal do pensamento universal (?) e cujas ideias devem ser veneradas porque sim.
Para um país que foi colônia por mais de 300 anos, e que ainda sofre forte influência da cultura estrangeira, majoritariamente ocidental-europeia, e que enxerga esta cultura exógena como superior, moral e bela, tentar pensar a si próprio, descolonizar o próprio pensamento, é um desafio imenso, e acredito que mais do que necessário.
No terceiro capítulo da República, Platão, através de Sócrates, menciona que para que o povo se mantenha unido, este povo precisa acreditar numa nobre mentira:
Com o início do movimento antiescravagista, produziram uma onda de imigrações, dessa vez de europeus, para substituir a mão de obra escrava, e de quebra promover um branqueamento do país, pois para políticos e certos intelectuais da época, a miscigenação era o motivo do atraso do país _ atraso aqui entendido como não entrada no chamado mundo moderno e industrializado.
Após a guerra civil dos EUA, este entrou forte com sua influência e porrete na América Latina, que fez permanecer e até aumentar o sentido das economias destes países, como basicamente grandes latifúndios produtores e exportadores de produtos primários (matérias primas), e importadores de produtos acabados _ que são mais caros que os produtos primários, e tornam a balança comercial mais favorável para aqueles que exportam tais produtos acabados.
Com a entrada do Brasil _ e demais países do chamado terceiro mundo _ na era da industrialização, mantendo sua dominação financeira e comprando influências, as grandes potências passaram a instalar suas fábricas (as transnacionais), explorando novamente e ainda as terras brasileiras, seus "recursos naturais", pagando salários bem menores do que pagam em seus próprios países, e no final pegando essa riqueza produzida por mãos brasileiras, e levando para seus países. Onde como já sabemos, passam bem, obrigado.
Voltando ao raciocínio inicial
Comecei falando de filosofia e acabei tendo que me desviar num certo resumo da história brasileira, e isso não foi à toa.Para começar a pensar enquanto brasileiros e brasileiras, creio ser necessário entendermos nossas raízes, entendermos nosso lugar no mundo, termos pelo menos uma noção da nossa constituição enquanto povo e nação. Em meio a colonização, importação de povos escravizados, povos originários, imigrações tardias, existe um ser brasileiro? Se existe, como surgiu, como se identifica e quais suas visões de mundo? O que é esse ser brasileiro?
Quando pensamos a vida, o fazemos no espaço e no tempo. Cada mente tem suas possibilidades de abstrações, de viajar para lugares que já existiram ou que talvez ainda vão existir. Mas essa mente está presa a um corpo histórico: um corpo preso no tempo e no espaço. E este corpo está sujeito às influências culturais (à língua, às crenças, comportamentos, etc), aos valores familiares e da sociedade em que está inserido num determinado período no tempo.
Platão por mais que tenha deixado muitos escritos, refletindo sobre vários assuntos, era um homem preso no espaço e tempo, influenciado pela cultura e costumes desta sociedade, e que também pensou questões do seu tempo. Em sua obra A República, debruçou-se sobre a questão da cidade ideal e do governo ideal, chegando a conclusão que a aristocracia (o governo dos bons, no sentido de mais capazes) era a melhor forma de governo (ele abominava a ideia de democracia) e que os mais aptos para governar (ora, ora) seriam os reis-filósofos.
Uma pergunta aqui se faz necessária: Que filósofos Platão leu? Você deve se lembrar que ele foi pupilo de Sócrates, e isso pode ser parte da resposta, então mudo a pergunta: Que autores Sócrates leu? E se leu quaisquer autores, o que estes leram antes?
Essa pequena digressão é apenas para ilustrar algo que considero importante: se consideramos a filosofia ou como o amor pelo conhecimento, ou como um processo de reflexão sobre o mundo, tal processo pode ser feito por qualquer pessoa que tenha a capacidade de refletir, em qualquer parte do mundo e em qualquer época.
Sendo nós seres humanos, brasileiros e brasileiras, temos também a capacidade de fazê-lo, e não precisamos necessariamente fazer isso partindo de premissas e ideias que não são às nossas, de problemas que não são os nossos. Podemos pensar o mundo a partir das nossas angústias e inquietações, dos nossos problemas e desafios, dos nossos valores e costumes.
Não estou aqui dizendo que devamos rejeitar o pensamento considerado estrangeiro, não se trata disso.
Devemos sim dialogar com este pensamento, tentar entender o que Descartes tem a nos dizer sobre questões que nos afligem, e conversar com suas ideias. Não rejeitá-las logo de cara, mas também não agir de forma dogmática e subalterna, simplesmente importando tais ideias acriticamente porque dizem que este homem francês, também fruto de seu tempo, é um filósofo que está num certo pedestal do pensamento universal (?) e cujas ideias devem ser veneradas porque sim.
Para um país que foi colônia por mais de 300 anos, e que ainda sofre forte influência da cultura estrangeira, majoritariamente ocidental-europeia, e que enxerga esta cultura exógena como superior, moral e bela, tentar pensar a si próprio, descolonizar o próprio pensamento, é um desafio imenso, e acredito que mais do que necessário.
Para que pensar-se brasileiro?
Deixo essa reflexão para ilustrar um pouco da importância do pensar-se como parte integrante de um determinado povo, que vive em seu próprio território num dado tempo mundo.No terceiro capítulo da República, Platão, através de Sócrates, menciona que para que o povo se mantenha unido, este povo precisa acreditar numa nobre mentira:
Sócrates — (...) Começarei por tentar convencer os chefes e os soldados, em seguida os outros cidadãos, de que tudo o que lhes ensinamos, educando-os e instruindo-os, tudo aquilo de que julgamos ter o conhecimento e a experiência, não passava, por assim dizer, de sonho; que, na realidade, eram então formados e criados no seio da terra, eles, as suas armas e tudo o que lhes pertence; que, depois de os ter formado inteiramente, a terra, a sua mãe, lhes deu â luz; que, por isso, devem considerar a região que habitam como a sua mãe e ama, defendê-la contra quem a atacar e tratar os outros cidadãos como irmãos, filhos da terra como eles (...) “Na cidade sois todos irmãos”.Para Platão, a mãe terra é considerada uma nobre mentira, mas para os povos originários (índios), a mãe terra é algo sagrado, que seu povo pertence à terra onde nasceu, que um dia voltarão para ela e por isso tem uma relação de tremendo respeito com ela. Por mais que possa ser considerado um pensamento mágico, não há dúvidas que a relação destes povos com á terra, não é uma relação de exploração, que ajuda a perpetuar seu povo e sua cultura. E no caso de Platão, por mais que afirme que seja uma nobre mentira, justamente por dizer que é nobre, a entende como uma crença fundamental para união e perpetuação desse povo.

Uhull blog novo com um pé na geografia!curti, epistemologia decolonial na veia \m/ Sobre o pensar o Brasil olhando pelos olhos de cá, e não daseuropa, te convido a conhecer o fantástico Milton Santos! Você ira se deliciar... Um grande abraço!
ResponderExcluir